O complexo de Bom Jesus – Braga

bomjesus%20skyscrapercityUm complexo de edifícios que se confunde com a minha vida. Lembro-me do meu avô materno me levar lá de autocarro ao sopé do Pórtico. Apanhávamos então o elevador hidráulico que subia o monte, misturando-se com o arvoredo. Alcançávamos a Igreja – idealizada pelo arquiteto bracarense Carlos Amarante – e o largo onde se dava milho aos pombos e se tiravam fotografias a preto e branco com uma tecnologia do início do século XX. Mais adiante a esplanada e o miradouro: «vamos ver Braga por um canudo?»

A descoberta ia a meio. Detrás do Santuário o monte continuava a subir no meio de fontes e recantos. Um lago premiava a subida. Podíamos então alugar um barco a remos e ir depois a um parque infantil com uma miríade de divertimentos em ferro – algo que os imperativos de segurança da atualidade não podem já tolerar.

Foi mais adiante na minha vida que olhei para o complexo de outra forma. Paralelamente ao percurso do elevador, escondia-se um escadório complexo, ziguezagueando pela floresta e depois, triunfante, partia de um largo até ao Santuário principal.

Contava-se pelo monte, no interior de pequenas capelas, a vida de Jesus. Desde o pórtico e pelo arvoredo os episódios iniciais. Do largo até ao Santuário a crónica da crucificação inevitável.

Mais tarde ainda, quando fui guia turístico, o professor que nos preparou para a tarefa, chamou-nos a atenção: «reparem, o granito do escadório forma um cálice gigante  pelos vários patamares do escadório. É o Santo Graal que recolhe o sangue que escorre do Santuário» (onde se representa a crucificação).

Novamente entre o arvoredo e de forma muito discreta, estende-se um terceiro lanço de escadas que permite aceder a um último patamar – aquele em que se conta a Ressurreição e a Ascenção de Cristo.

Decorrido outro bom par de anos um amigo de visita e que estava a receber na cidade, chamou-me a atenção para a polissemia de códigos e de mensagens espalhadas por todo o complexo. Tudo tinha um significado: o número de lanços de escadas entre patamares; o número de degraus em cada lanço; as figuras bíblicas, mas também pagãs e mitológicas que se relacionavam com as capelas em que se narrava determinado episódio da vida de Cristo.

Foi uma tarde interessante a especular sobre as relações entre todas essas ordens de signos.

Enfim, se tudo isto vos cansou, podem sempre pedir uma cerveja numa das esplanadas do complexo ou ainda hospedarem-se num dos inúmeros hotéis existentes. Garanto-vos, as vistas são soberbas e o murmúrio das águas abundante.

Nota: decorre atualmente um processo de candidatura desde complexo a Património da Humanidade – por mim já o é desde sempre!

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