E se comprássemos na Lello?

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É engraçado como nos sentimos orgulhosos de tanta coisa que nada tem a ver connosco. Há quem vibre com as conquistas internacionais das “nossas” equipas de futebol. Há quem fique extremamente feliz quando bandas ou músicos portugueses são reconhecidos lá fora. Há quem não consiga disfarçar um sorriso quando um estrangeiro mencione o quão gosta da obra de um escritor português.

E, mesmo que não se acompanhe as jornadas futebolísticas, mesmo que não se acompanhe a carreira dos músicos em questão, mesmo que nunca se tenha lido um único texto do reconhecido autor, há quem se sinta orgulhoso por serem portugueses. Se, estiverem então, ligados à cidade onde se nasceu, cresceu ou se vive, é frequente o orgulho ainda mais rapidamente se manifestar.

Eu não escapo à regra. Adoro mostrar locais que considero extremamente bonitos e/ou cativantes a quem visita a minha eterna cidade, o Porto, aproveitando esses momentos para redescobrir uma e outra vez a minha metrópole.

Os habitantes de uma cidade conhecem sempre um ou outro local especial que não constam dos guias turísticos e acredito que esses dêem um maior gozo a mostrar. No entanto, por vezes, locais que não constavam dos guias, começam a constar e até a serem bem cotados internacionalmente.

Muitas vezes visitei a portuense Livraria Lello na companhia de visitantes à cidade, considerada atualmente por alguns uma das três mais bonitas livrarias do mundo. Já visitei uma das outras, a Ateneo (a qual ocupa um lugar de um antigo teatro), em Buenos Aires, e tanto quanto consiga atingir a imparcialidade, acho a Lello mais simpática.

Mas quantas vezes fui à Lello exclusivamente para o fim a que se destina uma livraria? Não vos sei dar uma resposta nestas minhas pouco mais de quatro décadas de existência, mas julgo não errar se vos assegurar que foram poucas. Posso ter adquirido livros aquando a apresentei aos meus amigos… mas ir lá propositadamente para esse fim? Terá sido raro, tenho de confessar.

Talvez, tal como eu, muitos portuenses, tenham vindo a ter uma postura semelhante. E, quiça, muitos portugueses também…

E a livraria tem sobrevivido nesta época de crise? Parece que sim, ao contrário da Feira do Livro do Porto, que este ano parece que não irá realizar afinal a 83ª edição. Mas, acredito que não esteja de muito boa saúde, por um sintoma manifestado: começou a cobrar entradas, para pagar o desgaste. Na reportagem que li num jornal diário, ora afirma-se que tal está reservado a grupos de turistas, ora se insinua que um casal com um filho já é um grupo a quem é passível de ser cobrada entrada.

É pena! Certamente que se me dirigisse à livraria para comprar o que quer que fosse e me quisessem obrigar a comprar um marcador de livro por 2 euros… achá-los-ia extremamente antipáticos e não sei se voltaria lá.

E se me disserem que só cobram a quem não vai lá comprar nada, é algo tão difícil de avaliar que permitirá esquemas de ambos os lados. Solicitar por exemplo um livro esgotado… cobrariam ou não entrada por não terem o livro pretendido?

Mas a verdade é que não vou lá comprar um livro, pois não? E esse é que é o problema… As entradas são um sinal de que as vendas não andarão muito bem…

Tentei pensar se teria comprado uma entrada na porteña Ateneo, caso tal me tivesse sido proposto. Como turista, provavelmente sim. Seria uma oportunidade para visitar um espaço onde talvez não mais voltasse. Mas sentir-me-ia defraudado se aquilo a que tivesse acesso fosse exatamente o mesmo que os locais. E a descriminação sofrida decerto não me deixaria envolver emocionalmente com o espaço, nem ficar com boas memórias ou recomendar a visita.

Proponho portanto à Lello, que em vez de obrigar os turistas a comprar um marcador de livros, os deixe ter acesso a algo diferente dos clientes da livraria, como, por exemplo, uma curta conversa num determinado local da Livraria, com alguns factos sobre a Lello e os seus fundadores, mostrar-lhes algumas primeiras edições e oferecer-lhes eventualmente um desconto simbólico num ou outro livro. A discriminação seria assim positiva…

Quanto aos portuenses e demais portugueses, apelo – sem nenhum interesse comercial da minha parte – que considerem fazer compras de vez em na Livraria Lello. Para que possam continuar a sentir orgulho em Portugal ter uma das livrarias mais belas do mundo.

Lello, passo aí em breve para comprar um livro 😀

NPS

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