São os filmes de março…

Realmente, parece não haver fome que não dê fartura. Em março, tive oportunidade de assistir a bastantes filmes, por comparação com o mês anterior. Foram bons filmes? Já vamos saber…

Começo com algo que eventualmente entraria numa categoria que pouco abordo nos textos que aqui coloco a nível da 7.ª arte que vou visionando, devido à sua pouca frequência, as obras-primas. Tenho de confessar que sou um grande apreciador de Salvador Dalí, o que já originou que percorresse grandes distâncias para apreciar a sua obra, corridas contra o tempo ou leituras dedicadas à sua arte. Nesse sentido, sempre fiquei muito curioso com a obra jamais vista que Salvador Dalí estaria a produzir nos estúdios de Walt Disney para uma curta-metragem de animação. Foi na sequência da produção de Fantasia 2000, 4 anos após aquele, que Dominique Monfery nos apresentou Destino (2003), baseado nos esquissos e demais arte produzida há tantos anos atrás para essa animação. Os apreciadores de Dalí decerto reconhecem na curta muitos elementos simbólicos da sua obra, que curiosamente contribuem para a unidade narrativa da curta-metragem. Impressionante!

1) EM DESTAQUE

Não será por acaso que o destaque do mês foi para o documentário Dali & Disney: A Date with Destino (2010) de Ted Nicolaou, o qual narra sumariamente as vidas de Disney e Dalí até ao momento em que se demora na intersecção das mesmas, com, obviamente, grande destaque para Destino. São 82 minutos que apetece rever e rever…

2) MENÇÕES HONROSAS

Quem foi Ida Dalser? Vencer (2009), de Marco Bellochio, retrata a relação de Mussolini com a sua amante secreta e o filho de ambos. O encontro, a paixão, o desencanto, o abandono… Uma perspetiva pouco comum e conhecida de Benito, Il Duce, o ditador italiano cocriador do fascismo… A sua relação com Ida foi o prenúncio do que fez à Itália? Um filme repleto de excelentes interpretações!

Séraphine (2008) de Martin Provost dá-nos a conhecer a curiosa vida da pintora naïve francesa Séraphine Louis ou Séraphine de Senlis e a sua relação com patrono alemão Wihelm Uhde. É fascinante como são sobrepostos o seu estado psíquico e relação com a natureza com a sua pintura. Tudo regado com interpretações apaixonantes…

Há quem adore a obra do realizador Peter Greenaway e quem a deteste. Pertenço a um eventual terceiro grupo que não se enquadra em nenhum dos anteriores, embora penda mais frequentemente para o que gosto do que não gosto. Um Z e Dois Zeros (1986) foi o terceiro filme de Greenaway e já aqui se encontra a forte inspiração na pintura, uma das marcas do realizador, centrada desta feita no pinto holandês barroco Johannes Vermeer. A morte e a decomposição são os temas dominantes do filme, esta última adquirindo uma abordagem próxima do documentário com recurso ao time-lapse. É impossível ficar indiferente.

É quase inacreditável que este seja o primeiro papel de Elizabeth Olsen, a protagonista de Martha Marcy May Marlene (2011) de Sean Durkin. É quase inacreditável que este seja o primeiro longa-metragem realizado por Durkin. O tema é aliciante – jovem traumatizada por culto abusivo – e não desaponta na quantidade de questões que levanta. Uma excelente surpresa!

Não conheço a peça de Wajdi Mouawad em que se baseou, pelo que apenas posso avaliar o filme Incendies: A Mulher que Canta (2010) de Denis Villeneuve per se. A obra propõe-nos uma viagem que providencia que apenas a certo momento nos apercebamos ser muito maior que a distância física entre o Canadá e o país ficcional inspirado no Líbano. A dimensão psicológica tarda, é tortuosa e é impossível piscar os olhos quando o temor nos invade, inquietos com a possível confirmação das suspeitas finais… Abre-nos os olhos em todos os sentidos!

A história de Margaret (2011) de Kenneth Lonergan – e não me refiro à estória que contém – não augura nada de bom: um filme extenso com várias tentativas de montagem que não agradavam ora ao realizador ora ao produtor ora ao estúdio, que ultrapassou inimaginavelmente por anos a data de lançamento, com múltiplos processos judiciais… Se adicionarmos Anna Paquin como protagonista, Matthew Broderick num pequeno papel secundário e Jean Reno a interpretar um imigrante de origem que não francesa… ainda mais cinéfilos se afastarão do filme… Injustamente. O filme aborda questões do nosso quotidiano frequentemente ignoradas pela indústria cinematográfica e não nos dá respostas delicodoces. Quem não deseja mais filmes assim?

Desde meados dos anos 80 que têm existido as mais variadas tentativas de produzir obras nos mais diversos meios – mas com especial incidência na banda desenhada, televisão e cinema – onde o mito dos super-heróis se aproximasse da realidade. Chronicle (2012) de Josh Trank talvez seja a que mais se aproxima de tal – não só pela técnica utilizada – mas por entrar em confrontação direta com a conceção de Stan Lee de um dos mais conhecidos super-heróis, o Homem-Aranha. Quando jovens adquirem grandes poderes, isso não significa que os utilizam de formam responsável; por outro lado, a morte de um familiar em vez de os fazer perceber que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, orienta-os no sentido oposto. Qual das linhas filosóficas será a mais provável?

Adopt a Sailor (2008) de Charles Evered é uma daquelas pérolas ignoradas. Não tendo a oportunidade de ver a peça, não há propriamente uma desculpa válida para não ver esta crítica à Nova Iorque pós 11 de setembro, com sabor agridoce. Bebe Neuwirth e Ethan Peck conseguem tornar real o estranho contexto, com ótimos desempenhos. Conseguirá uma terceira pessoa colocar toda a vida de um casal numa nova perspetiva?

3) LISTAGENS DE INDIFERENÇA:

Provavelmente, nunca o início da listagem de indiferença conteve tanto títulos aos quais não sou tão indiferente assim. Houve várias razões para não terem direito a menção honrosa – uma interpretação ou outra da qual não gostei tanto,  a provável heresia de ter gostado mais de um remake atual que do filme original,  o tema não me interessar assim tanto nesta fase da minha vida, etc. Por outro lado, desconheço se alguns não estarão na listagem devido a um valor que lhe eventualmente lhes atribua por ter gostado muito do livro ou do filme que lhes deu origem e não tanto assim do valor intrínseco das obras em causa… No entanto, dificilmente me veriam a desaconselhar a visualização dos filmes que aloquei ao grupo “Gostei mas não tanto assim de”:

A Pele Onde Eu Vivo (2011) de Pedro Almodóvar;
Match Point (2005) de Woody Allen;
50/50 (2011) de Jonathan Levine;
A Primeira Vitória (1965) de Otto Preminger;
Três (2010) de Tom Tykwer;
A Coisa (2011) de Matthijs van Heijningen Jr.;
A Velha Raposa (1969) de Henry Hathaway;
Batman: Ano Um (2011) de Sam Liu e Lauren Montgomery;
Fantasia 2000 (1999) de James Algar, Gaëtan Brizzi, Paul Brizzi, Hendel Butoy, Francis Glebas, Eric Goldberg, Don Hahn e Pixote Hunt;
De Homem Para Homem (2005) de Régis Wargnier;
A Tempo e Horas (2010) de Todd Phillips;
Nana (2011) de Valérie Massadian.

“Quase, quase que não gostava” de:

13 Assassinos (2010) de Takashi Miike;
Scooby Doo! Canção do Vampiro (2011) de David Block;
O Último Destino 5 (2011) de Steven Quale;
Space Jam (2005) de Joe Pytka.

4) A EVITAR

De “fugir a sete pés”:

Mal Posso Esperar (1998) de Harry Elfont e Deborah Kaplan

NPS

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