Optimus Primavera Club 2012

Numa altura em que, após ter sido divulgado o cartaz do barcelonês San Miguel Primavera Sound 2013, se espera conhecer a constituição integral do cartaz portuense – prometido para dia 5 de fevereiro – vamos fazer um pequeno recuo no tempo para refletirmos sobre o vimaranense Optimus Primavera Club 2012.

Se a nossa análise do portuense Optimus Primavera Sound 2012 teve direito a parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4, concentraremos neste texto as nossas impressões sobre o seu primo Club 2012, realizado entre 30 de novembro e 2 de dezembro na então Capital Europeia da Cultura.

2012 foi um ano sui generis para o Primavera Club. A versão outonal em sala do festival Primavera Sound realizou-se pela primeira vez além-Espanha, em Guimarães, e 2012 foi o ano em que aparentemente se decidiu interromper a realização do Primavera Club em Barcelona e Madrid. Assim, em 2013, há intenções de continuar a realizá-lo  em Portugal, bem como inaugurá-lo em Bordéus, França.

Mas regressemos então ao passado… Ao contrário do esperado, os bilhetes online para o Optimus Primavera Club 2012 tardaram a ser disponibilizados na plataforma digital. Mas, ultrapassada essa questão, foi quase tudo um mar de rosas…

dia 1:

Talvez por ser o fim de tarde de 6.ª feira, os festivaleiros demoraram a chegar. Foi pena. No Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), a portuguesa emmy Curl encantou com a apresentação do seu novo EP Origins, ensinando inclusivamente o auditório a como poderia descarregar o seu EP gratuitamente – ou eventualmente fazer uma doação aquando do mesmo. Literacia mediática! Comunicando com o público em português, cedo nos apercebemos de que o público do Primavera Club 2012 será mais “caseiro” do que o que viveu o festival Primavera Sound. Em português, foi também a sua versão de Maio Maduro Maio, que, curiosamente, não contrastou com o vestuário e o cenário com jogos de sol e lua. Se o início do concerto foi mais acústico, caminhou posteriormente para rumos eletrónicos, apesar da sala, para pena de muitos, coibir a possibilidade de dançar…

Seguiram-se os californianos Lemonade. Trata-se de um trio curioso. O percussionista da banda, Alex Pasternak, tentou transferir a sua energia e entusiasmo à plateia, com interpretações a lembrar a batucada brasileira; por contraste, o vocalista Callan Clendenin alienava-se do público, numa posição introspetiva e aparentemente sofredora. Deixado para trás o pós-punk e pseudo-rave do primeiro álbum, o trio apresentou um segundo álbum onde o chillwave é predominante. Nem todos se convenceram…

A sala seguinte era o Café Concerto do CCVF, a qual tem um pequeno problema no que toca a minha pessoa e faz com que não a frequente, apesar das apetecíveis propostas que o CCVF apresenta mensalmente naquele espaço – a sua pequena dimensão, aliada ao facto de lá ser permitido fumar, torna a qualidade do ar incompatível comigo. No entanto, como queria muito assistir à atuação dos portugueses Sensible Soccers, insisti, numa tentativa de assistir ao vivo aos sons que conheço do estúdio. Mas rapidamente tive de abandonar a sala. Fiquei duplamente desanimado porque outro concerto que me interessava muito era o do norte-americano Daughn Gibson, que se seguiria ao dos Sensible Soccers, no mesmo espaço.

Assim sendo, aproveitei a meia hora sem atuações fora do Café Concerto para realizar uma breve refeição e dirigi-me ao Grande Auditório do CCVF para assistir à segunda e última apresentação dos portugueses You Can’t Win Charlie Brown a interpretarem o icónico álbum The Velvet Undergound & Nico (a primeira ocorreu em outubro passado no lisboeta Lux). Com temas bastante familiares ao público, apesar de ter sido conferido um certo cunho pessoal da banda, agradaram a todas a gerações presentes, ou não andassem aquelas músicas a tocar desde 1967.

A norte-americana Sharon Van Etten era um dos nomes mais chamativos do cartaz e não desiludiu o público, com as suas canções magistralmente compostas e aliadas a letras poderosas, mantendo com o público uma contínua comunicação entre canções, onde tentou ter – e teve – graça, em especial com quem interagia com a cantora. Tal como verificado na Casa da Música no último dia do Optimus Primavera Sound 2012, os portugueses não tentam dialogar com os intérpretes entre temas, ao contrário de alguns estrangeiros. Sharon, a certa altura, brincou com uma pseudoprovocação feita, respondendo “Portuguese were suppose to be polite!”, tendo o rapaz respondido da plateia “I’m spanish!”, ao que Sharon retrucou que então isso explicava o seu comentário. E desculpou-se, a seguir à gargalhada, sublinhando estar a brincar. Teve um comportamento semelhante quando disse que podia explicar uma coisa ou outra sobre como compôr canções a um senhor chamado Leonard Cohen, alguém que, na verdade, quem acompanha a sua carreira, sabe que venera.

Encantados com a sua voz, foi a vez do público abandonar o CCVF e rumar pela noite fria para o Centro de Artes e Espectáculos (CAE) S. Mamede. Lá chegados, os Destroyer, a banda canadiana de  Dan Bejar, já se encontra a atuar, para pena de muitos. Mas os festivais de música têm destas coisas, os atrasos acontecem mesmo quando existem alturas sem concertos sobrepostos. Apesar de ser mais um espaço onde era permitido fumar – e, infelizmente, ao contrário do Café Concerto, no horário, os espetáculos do S. Mamede não contemplam alternativas noutros espaços livres de fumo – o pé direito é enorme e existem pelo menos dois locais acessíveis ao público, a plateia – sem cadeiras – e o 2.º balcão (aparentemente, nem todos tinham acesso ao 1.º balcão). A voz de Bejar continua a encantar, perfeitamente inserida no registo alternativo da band entre um new wave e um revivalismo pós-punk, com os instrumentos de sopro a conferirem uma sonoridade única a esta banda.

Seguiu-se a que foi, na minha opinião, a maior desilusão da noite. Ariel Pink Haunted’s Graffiti pareceu desejar apostar tudo no acessório. O norte-americano Ariel surgiu de franja e de cabelo louro oxigenado, calças rosa e sacola. E, se o início do concerto parecia ser um bom prenúncio com Symphony of the Nymph a ser entremeada com Love Me Do dos The Beatles, aos poucos fui ficando com a sensação de que as canções pop de Mature Themes estavam ali a ser transfiguradas com uma atitude e show off que pouco tinha a ver com as mesmas. Uma pena…

Às duas da manhã iniciar-se-ia no mesmo espaço o momento club com os norte-americanos Machinedrum, DJ Rashad e DJ Spinn, mas já não assisti. Quando abandonava o CAE S. Mamede reparei em Pasternak e Clendenin a conversarem sozinhos nos sofás do lobby. Pelo vistos, nem a falar “portunhol e brasileño” (sic), Pasternak conviveu muito com os locais.

dia 2:

Enquanto Daughn Gibson andava pelo Porto, a solicitar sugestões do que fazer via Facebook, o meu trilho em Guimarães foi em tudo semelhante ao dia anterior. Apesar de estar muito interessado em assistir ao espetáculo dos portugueses Space Ensemble na Platafroma das Artes e Criatividade, optei pelos dois concertos no Pequeno Auditório do CCVF.

Tal como emmy Curl tinha referido na 6.ª f.ª não estar habituada a fazer concertos de tarde, desculpando-se assim de ter cumprimentado o público com boa noite às 18h30 – na verdade, já era de noite – B Fachada, entre gargalhadas, também culpou a hora do espetáculo para os diversos enganos que teve no palco: “Para mim, isto é de manhã!” O público foi permissivo e também se foi rindo dos enganos nesta apresentação do álbum Criôlo.

Seguiu-se Little Wings, a banda norte-americana de Kyle Field. O folk norte-americano vestiu-se de novas roupagens com um Field a confessar estar um bocadinho tocado pela bebida. Este contador de histórias, falou da avó, do halloween, do chapéu e dos adornos que trazia, chincou uma maçã, pulou, correu e no final atirou vários objetos de regalo para o palco. Após o concerto, fãs da sua música e arte, faziam contas à vida numa mesa exterior ao concerto, para decidirem que cassettes audio (sim, leram bem, cassettes) e ilustrações comprar…

Desta vez, nem me dirigi ao Café Concerto, não tendo assim a possibilidade de assistir aos portugueses Tropa Macaca e aos britânicos The Monochrome Set. Jantei livre de fumo e dirigi-me ao Grande Auditório.

O guitarrista norte-americano Sir Richard Bishop deliciou os presentes com a sua fusão entre o flamenco, música indiana e jazz, num registo acústico que ninguém queria ver terminado. Chegado ao final, perante os protestos da plateia. apontou para inacreditável quantidade de amplificadores que o rodeavam e explicou que o que agora se seguiria era a mais completa loucura e que iríamos todos parar ao hospital. Com algum receio de que se pudesse pensar que estava a criticar a banda que se seguiria, rematou com um “e eu também estarei lá convosco!”

Foi assim que não oficialmente foram introduzidos os norte-americanos Swans, banda que tem por hábito não deixar ninguém indiferente, entre os que a amam e os que a detestam. Não me encontro em nenhum destes polos. Gosto de alguns temas dos Swans e outros pouco me dizem. Fazendo uma comparação com o jazz, o avant garde e experimental serão talvez os géneros jazzísticos que menos me interessam, pois gosto de algumas explorações e outras não despertam nada na minha pessoa. Da mesma forma, assim é também como o rock, pós-rock e industrial. Mas gosto de poder controlar o volume do som e… sabia o que me esperava! E, se o concerto começou num certo tom, rapidamente se transformou numa explosão de som. Apesar da excelente acústica do Grande Auditório, havia quem estivesse literalmente com otalgia. Obrigados a estar sentados, os fãs da primeira fila iam abanando as cabeças como podiam, enquanto que os que iam abandonando a sala, eram olhados por muitos como se estivessem a cometer um sacrilégio. A dor nos ouvidos também me incomodava, mas permaneci, porque era realmente único o que se estava a assistir. Mais tarde ouviria alguém brincar que os músicos esperaram ter uma certa idade em que já estão quase surdos para poderem dar estes espectáculos. Não consegui evitar o sorriso. No entanto, não assisti o concerto até ao final, pois os Swans decidiram não cumprir o horário estabelecido e eu queria ainda ouvir pelo menos uma ou duas músicas da banda espanhola no São Mamede.

Na verdade, tinha tido ótimas experiências com os concertos espanhóis a que tinha assistido no festival portuense homónimo e queria ouvir os Viva! Mas, chegado ao local, apenas tive tempo para ouvir a última música, pelo que fiquei sem perceber o que tinha perdido.

Já quanto aos malianos Tinariwen, já tinha desfrutado seu último álbum, pelo que sabia exatamente o que iria ouvir destes rockeiros do deserto do Saara. Estes tuaregues berberes comunicaram com o público em francês, tentando ensinar à plateia junto ao palco movimentos de dança tradicionais do deserto. Apesar da língua em que cantam poder ser uma barreira, isso não se verificou, sendo uma banda internacionalmente conhecida e consagrada. Mas não nos fazem esquecer o que se passa no seu país, ao nos explicar que a ausência da estrela do grupo, Ibrahim Ag Alhabib, se deve a ele estar a lutar no seu país pelos ideais em que acreditam. Em janeiro de 2013, quem ouviu este testemunho no concerto, decerto se lembrou destas palavras, quando foi noticiado que outro membro do grupo, Abdallah Ag Lamida, foi preso por uma organização islamista, tendo entretanto sido libertado.

O momento club teria lugar com o dinamarquês Taragana Pyjarama e o alemão Robag Whrum, mas já lá não estava quando teve início.

dia 3:

Iniciei o último dia na Plataforma das Artes e Criatividade para o PAD Showcase dos três momentos portugueses interpretados por Blac Koyote, Dear Telephone e La La La Ressonance, tendo-se assistido a uma vera promiscuidade entre os membros de cada projeto, apesar dos sons próprios de cada um.

Não rumei para o Grande Auditório do CCVF, pelo que não assisti aos concertos dos portugueses sPILL e dos noruegueses/suecos Atomic. Ao invés, tomei um delicioso chocolate quente após o jantar e dirigi-me ao São Mamede.

Os finlandeses Cats On Fire apresentaram o seu último álbum, All Blackshirts to Me, com Mattias Björkas, entre os seus temas pop, a dialogar com o público e a manifestar o seu desejo de viver no Porto e  a solicitar que o ajudassem na procura de apartamento, tendo aparentemente resistido à proposta da jovem que lhe sugeriu que vivesse com ela – afinal, os portugueses já dialogam com o palco – bem como aos piropos que um fã lhe enviava frequentemente.

O público estava bem aquecido e os britânicos The Vaccines rapidamente incendiaram os rubros, repletos de energia, com temas bem executados e letras que decerto agradaram ao público adolescente que os tinha propositadamente vindo ver. Acredite-se ou não, foi um excelente fecho para um festival com poucos nomes de peso – mesmo no panorama alternativo – mas repleto de bons momentos, que competiu em grandeza com o irmão barcelonês e superou o irmão madrileno.

NPS

Anúncios