Clarice para os mais novos

lauraMuitos dos meus amigos sabem quem me ocorreria instantaneamente quando alguém me solicitasse para proferir o nome de uma escritora. Já passaram muitas décadas desde que me apaixonei pela escrita de Clarice Lispector. Esta paixão foi de difícil consumação, pois viviam-se outros tempos. A sua obra encontrava-se inédita em Portugal na sua quase totalidade e o comércio online estava a dar os primeiros passos. Em cada uma das viagens ao Brasil, trazia na mala todas as obras que encontrava da autora em livrarias e alfarrabistas – nos quais procurava um ou outro título que não descobrisse em tempo útil nas primeiras. Deste modo, todos os livros da Clarice que possuo, também têm uma história de como foram adquiridos.

A Relógio d’Água, que tem vindo a publicar a obra da autora entre nós, editou este ano dois dos livros infantojuvenis de Clarice, pelo que foi a desculpa perfeita para os ofertar à descendência. Continuo a considerar que a sua leitura é muito mais prazerosa para os adultos que para as crianças. No entanto, os filhotes ouviram atentos as atribulações da Escritora (sim, tem de ser com E maiúsculo) com os relatos que constituem A Mulher que Matou os Peixes e A Vida Íntima de Laura.

mulherO ponto comum destes livros infantojuvenis são os animais, que, no entanto, praticamente não se antropomorfizam. Nas desventuras de Laura, somos convidados a imergir na mente do tal galináceo e observarmos a vida pelos seus olhos.  No livro dedicado aos peixinhos vermelhos, são-nos relatadas as relações de Clarice com diferentes animais ao longo da sua vida, numa tentativa de espiar as culpas pela morte dos tais peixinhos, ao explicar o quão sempre gostou e foi amiga dos animais. No entanto, posso afirmar que os meus filhos não a perdoaram…

Os peixitos ficaram 3 dias a cargo de Clarice, que, concentrada na sua máquina de escrever, se esqueceu de os alimentar e de mudar a água do aquário. Talvez por isso, eu preze tanto a sua escrita. Clarice dava vida à sua prosa como poucos o sabem fazer. Como conseguiria ela, simultaneamente, se focalizar no mundano? Felizmente, ao contrário de Laura, a Clarice conseguia voar… Que os meus filhos, à medida que cresçam, se apaixonem pela tua Escrita e te perdoem a morte dos peixes são os meus mais sinceros desejos.

NPS

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