Filmes setembrinos

Poucas semanas após o término de setembro, está na altura de um olhar às impressões que me deixaram os filmes que vi no mês passado.

1) TRIO EM DESTAQUE

Tape (2001) de Richard Linklater foi, sem dúvida, aquele que mais me interessou. Tendo por base a peça de teatro homónima de Stephen Belber, o filme respeita igualmente as três regras aristotelianas. A ação ser desenrolada em tempo real num único local – um quarto de motel norte-americano – é o contexto ideal para nos envolvermos no psicodrama que vivem as três personagens. É possível termos perspetivas diferentes sobre acontecimentos passados se as tivermos vivido em conjunto? Provavelmente, muitos de nós tiveram a experiência de ouvir os amigos não contarem aquilo de que nos recordamos exatamente como nos lembramos. Estarão propositadamente a alterar os acontecimentos – quiça para torná-los um pouco mais interessantes – ou acreditarão que realmente aconteceram daquele modo? E, se continuarmos a seguir essa linha de raciocínio, poderemos questionar-nos até que ponto os eventos que damos por certos na História da Humanidade ocorreram precisamente do modo que foram narrados…

Contado Ninguém Acredita (2006) de Marc Forster explora uma das fantasias comuns aos autores (frase baseada numa opinião minha e não apoiado por nenhum estudo com uma amostra representativa de escritores atuais ou já falecidos). O que aconteceria se o autor encontrasse uma das suas personagens no mundo real? Frequentemente, para que tal acontecesse, associa-se a essa impossibilidade física um acontecimento de tal importância na sua natureza que venha a facilitar o referido encontro. Um dos trunfos do filme é utilizar uma limitadíssima proporção de componente fantástica, de modo ao espetador poder imergir no pressuposto sem grande resistência. Para além do filme, interrogando-me sobre as ideias comuns à população – ou grupos específicos que a compõem – e não sendo um adepto do determinismo per se, questiono-me o quão deterministas são essas ideias, sob um ponto de vista macro, aplicado à sociedade.

Depois de tantas inquietações filosóficas, centremo-nos em algo mais terreno, ou seja, fantasmas e zombies. ParaNorman de Chris Butler e Sam Fell é a mais recente produção dos estúdios de animação em stop motion Laika. Apesar de Coraline e a Porta Secreta continuar a ter um lugar muito especial na minha lista de preferências (culpa provavelmente atribuível a ter anteriormente lido o livro homónimo de Neil Gaiman), o segundo filme dos estúdios Laika, facilmente conseguiu estar no trio de destaques. O filme monta e desmonta os arquétipos dos filmes de terror e/ou de temática sobrenatural a tal grau que nos apercebemos que as crenças, a discriminação, a incompreensão e a ignorância são os vilões do filme. O público-alvo continua a ser quase tão abrangente quanto Coraline, apesar de eventualmente ter perdido alguns pontos quanto ao género feminino. Em breve, abordarei o marketing do filme, pelo que chegamos ao momento de passar à segunda categoria…

2) MENÇÕES HONROSAS

Três momentos: nascimentos, casamentos, falecimentos. Que rumos vivemos entre estes? A Minha Versão do Amor (2010) de Richard J. Lewis mostra-nos as escolhas – frequentemente, politicamente incorretas – de Barney Panofsky.

Os 101 Dálmatas (1961) de Clyde Geronomi, Hamilton Luske e Wolfgang Reitherman, 1 anito após o seu 50º. aniversário, teve direito à comercialização de uma edição em alta definição, distribuída via blu-ray . Não é o meu filme favorito da Disney, mas inevitavelmente os seus personagens fazem parte do meu imaginário. Apreciei bastante rever o filme neste formato, bem como a piscadela de olho a A Dama e o Vagabundo com o cameo – deslocado, é certo – dos personagens.

A crise, a crise, a crise… Kinky Boots (2005) de Julian Jarrold mostra-nos como uma certa empresa britânica de calçado tentou ultrapassar as dificuldades financeiras alterando o seu cliente-alvo e o produto a oferecer-lhe. Esta história baseia-se em factos reais… Chiwetel Ejiofor tem uma interpretação brilhante, sem tropeçar em estereótipos.

Quando conhecemos demasiado as personagens que são retratados num filme, tornamo-nos indubitavelmente mais exigentes quanto ao resultado final. Os filmes baseados em super-heróis da Marvel têm vindo a gradualmente perder a conotação de “mau” e a se associar ao “bom” entre os críticos, com produções cada vez mais cuidadas – e dispendiosas -, às quais a enorme quantidade indispensável de efeitos especiais não é indiferente. A menção honrosa  aos Os Vingadores (2012) de Joss Whedon prende-se mais com a transposição do conceito do Universo Marvel da banda desenhada para o cinema, no qual alguns (não todos) heróis marvelenses de outros filmes partilham uma existência num universo comum. Deste modo, os filmes podem ser visionados de forma independente, havendo no entanto algumas pistas curiosas colocadas para os que acompanham toda a saga. O desafio é manter este equilíbrio concomitantemente funcional e divertido.

3) LISTAGENS DE INDIFERENÇA

Fosse por ter tido expectativas mais altas do que deveria, por não ter gostado muito da adaptação cinematográfica do livro ou por outra qualquer razão não mencionada, eis a lista de filmes que poderia ser intitulada “gostei mas não tanto assim”:

Munique (2005) de Steven Spielberg;
Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2 (2011) de David Yates;
Um Monstro em Paris (2011) de Bibo Bergeron;
Marvel One-Shot: Item 47 (2012) de Louis D’Esposito (curta-metragem).

A seguinte listagem poderia ter o título “quase, quase que não gostava”:

Cães de Palha (2011) de Rod Lurie.
Red Eye (2005) de Wes Craven.

4) A EVITAR

Nestes filmes não encontrei nada que me interessasse:

A Casa de Campo (2003) de Mike Figgis;
Caçadores de Dragões (2008) de Guillaume Ivernel e Arthur Qwak;
Love (2005) de Vladan Nikolic.

NPS

Anúncios