As memórias da cultura em Portugal

Hesito no título do texto… as memórias da cultura em Portugal? É inexato. O que se trata é de divagar um pouco sobre a forma como a amnésia cobre de uma forma ou de outra todos os criadores lusitanos.

O exemplo de Marcos Portugal  – compositor famosíssimo no seu tempo, de carreira internacional, é agora visto como um precursor do gran finale operático firmado por Rossini. O presente conquistado por Marcos Portugal no seu tempo foi-se dissolvendo.

A construção da memória das grandes nações não procura heróis que não lhe pertençam.

Abordar Marcos Portugal como um precursor do gran finale ou Bomtempo como pré-romântico é uma forma redutora de encarar as suas obras. Metaforicamente: eles rasgaram algo, traçaram novos caminhos, não foram timidamente, e pela sua metade, algo que ainda se estava para realizar no futuro. Fazemos a crítica – não como musicólogos – mas como alguém que tenta respeitar o que se passou.

Os nossos criadores não são sustentados por uma audiência nacional que frequentemente é fragmentária e quase inexistente. Marcos Portugal encontrou-a em Itália e impôs-se ao mundo. No entanto não foi alimentado como passado: não teve a força da cultura italiana para o eleger como nome de referência. O que lhe fizemos nestes dois séculos?

Fechámos-lhe as partituras em áridos arquivos, executámos as suas obras sem grande sustentabilidade mediática. Sei lá cruzando-a com outros vetores: concertos televisionados de forma profissional, documentários, filmes sobre a sua vida e obra, etc… Não se firmou em produtos culturais que adensem o poder simbólico da obra do compositor.

Transformou-se em precursor – algo incompleto no fundo.

Portugal, no seu interior, não sustenta a história da sua cultura e dos seus feitos. Por isso mesmo não a propõe ao mundo… Já lemos em diversos livros de divulgação histórica para o grande público: «…os europeus iniciaram a idade das descobertas explorando a costa africana…»

Anúncios