Uma das minhas primeiras experiências na TV

Anos 70. Estúdios da RTP do Monte da Virgem. Lá me encontrava eu para interpretar um personagem para um pequeno sketch inserido num episódio de uma série dedicado à psicologia infantil, transmitido à hora de almoço na RTP1. O que se pretendia era que eu interpretasse uma criança a brincar com livros da biblioteca do seu pai, o qual entraria na sala e perante a situação me aplicaria uma estalada. O estalo era a fingir, tranquilizaram-me. Estava tranquilo – quantas e quantas vezes tinha brincado aos cowboys, polícias, espiões ou aventureiros no espaço sem que eu nem nenhum dos meus amigos se magoasse?

Ainda pré-alfabetizado, tinha já uma paixão pelos livros e, com o passar dos ainda parcos anos, tinha aprendido a estimá-los também. De que forma desejavam que eu brincasse com eles? Sugeriram que eu os empilhasse em torres gigantes ou com eles formasse um castelo… Optei por construir um comboio como se aqueles livros encadernados com capa de couro fossem peças de Lego. Mas acreditava que seria pouco verosímil uma criança brincar daquela forma com os livros… Também achei pouco provável que acreditassem que o senhor que entrava na sala era o meu pai – era tão pouco parecido com ele! Quanto à estalada… ele nem sequer encostou em mim a mão – qualquer um dos meus amigos interpretava muito melhor!

Houve outras cenas filmadas para esse e outros episódios, mas não é por acaso que foi essa a que mais me marcou. A razão não está ligada ao facto do sketch ser o mote para depois se discutir algo sobre educação parental, uma área em que mais tarde viria a trabalhar profissionalmente. A cena foi marcante devido à receção que teve. Muitas crianças vizinhas que não eram das minhas relações – frequentemente por serem mais velhas – dirigiram-se a mim nas semanas seguintes à transmissão do episódio supramencionado, a comentar o facto de me terem visto na televisão – sim, naquela altura nós víamos quase todos os programas televisivos, mesmo que o seu público-alvo não fosse infantil; não era possível mudar a televisão para um inexistente canal de desenhos animados. E a conversa terminava quase sempre da mesma forma – queriam saber se a estalada tinha sido real ou não. Ah, a magia da televisão…

NPS

(imagem: -Marcus-)

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