O real e o virtual

As crianças entram em casa a choramingar, acompanhados da mãe. Inquirida sobre o sucedido, explica-me que, ao contrário do habitual, numa visita relâmpago à avó materna, não jogaram à bola. “Quero jogar futebol!” é pronunciado repetidamente em coro ou a solo. E a vertente educação parental é-me rapidamente passada, bem como a sugestão de me voluntariar rapidamente para participar algures num jogo com eles. Estamos na reta final da tarde e não me parece viável a ideia – nem existe disposição momentânea para tal.

O plano A surge rapidamente. “Mas ainda ontem jogaste futebol!”, retruco ao meu filho de seis anos. Olha-me espantado e reflete uns milésimos de segundo para me responder que não é verdade. Insisto que sim, que o vi a jogar futebol no dia anterior num videojogo com Kinect (no qual tem realmente de chutar fisicamente o ar – pontapear o vazio? -, consoante a posição da bola no ecrã de televisão). Lembro-me de tal, pois não deixei de sorrir quando, durante o jogo, o ouvir proferir em voz alta “Estou a jogar futebol!”. Mas o meu filho não se deixa confundir na tentativa vã de diluir a barreira entre o real e o virtual. “Mas não foi a sério! Quero jogar futebol a sério!”, ao que se adicionam protestos semelhantes da minha filha de quatro anos.

Se há coisa que os meus filhos gostam é de prendas, obviamente. E de irem comprar prendas para si também! O plano B foi o de protelar. Sugiro que se querem jogar futebol a sério, têm de ter pelo menos uma bola de futebol e proponho que no dia seguinte se compre tal bola e toda a família vá jogar num parque, em vez de apenas os três (presenteando assim a querida esposa com uma participação ativa na sua ideia).

No entanto, o São Pedro não ajuda a concretizar o plano no dia seguinte. A chuva origina algumas lamúrias enquanto protestam para que encontre uma solução alternativa. Depois do plano A e do B terem saído gorados, o C é o de parcelar. Nesse dia, compraríamos a bola e no seguinte iríamos ao parque, novamente apenas os três por indisponibilidade da mãe. Não ficaram muito contentes com o adiamento mas lá se tiveram de contentar. Os maus agoiros surgiram à noite, sob a forma de um telefonema da avó paterna onde anunciava chuva para o dia seguinte.

Fui preparando as crias para a possibilidade de se ter de adiar mais um dia. No entanto, no último feriado de 15 de agosto – temporária ou indefinidamente -, o sol faz o favor de brilhar e secar a relva do parque por nós escolhido. O meu filho diverte-se imenso, mas a filhota para de jogar passados uns dez minutinhos. Após se ir sentar em vários locais, à sombra e ao sol, desiste e vem-me dizer “em todos os sítios que me sento, há muitas coisas voadoras!”, acrescentando ainda um “com asas!” para o caso de eu não saber ao que se refere.

O real e o virtual… O real e o virtual…

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