Leonor ou a música de uma musa que vi passar…

Sempre gostei das sinfonias em diferentes andamentos com variações do tema principal. O gozo de criar a partir de um tema base e evoluir deixando o pensamento e os sentimentos fluir faz parte do processo de estar inserido num mundo global e social. O outro reconhecer o contributo na forma, na estrutura, no timbre, no ritmo, faz-nos sentir ligados. Como é que podemos ligar Camões a Gedeão e ainda neles ver a garota de Ipanema? Vejam lá se conseguem:

Descalça vai para a fonte

de Luís de Camões

Descalça vai para a fonte

leonor pela verdura;

Vai formosa e não segura.

Leva na cabeça o pote,

O texto nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata.

Sainho de chamalote;

Traz a vasquinha de cote.

Mais branca que a neve pura;

Vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,

Cabelos de ouro o trançado,

Fita de cõr de encarnado,

Tão linda que o mundo espanta;

Chove nela graça tanta

Que dá graça a formesura;

Vai formosa e não segura.

Poema da auto-estrada

De António Gedeão

Voando vai para a praia

Leonor na estrada preta.

Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,

Vermelho de alizarina,

modelando a coxa fina

de impaciente nervura.

Como guache lustroso,

amarelo de indantreno,

blusinha de terileno.

desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.

Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro

na volúpia da escapada

pincha no banco traseiro

em cada volta da estrada.

Grita de medo fingido,

que o receio não é com ela,

mas por amor e cautela

abraça-o pela cintura.

Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem

corta a lambreta afiada,

engole as bermas da estrada

e a rumorosa folhagem.

Urrando, estremece a terra,

bramir de rinoceronte,

enfia pelo horizonte

como um punhal que se enterra.

Tudo foge à sua volta,

o céu, as nuvens, as casas,

e com os bramidos que solta

lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos

já nem percebe, Leonor,

se o que lhe chega aos ouvidos

são ecos de amor perdidos

se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta.

Vai na brasa, de lambreta.

 

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