A Nave

Há músicas que nos cativam de um modo que não conseguimos explicar. “A Nave” de Érico Baymma é uma delas. Há mais de uma dúzia de anos que a transporto. Uns conseguem vislumbrar Chopin, outros Glass. Eu prefiro-me isolar das eventuais influências da sua génese e concentrar-me na sua essência. Partilho-a convosco (agradeço que ignorem as imagens do videograma e se concentrem no som):

Para os que que gostam de desafios, revelo também a letra da música que a talentosa Etel Frota escreveu anos depois. Conseguirão imaginar a conjunção dos versos com a música?

Quem sabe de tanto te ver partindo
invento um continente no meu peito
Um cais de onde te acompanho, ao largo
qual nave a se desgarrar

Voltar pra casa, uma vez mais sozinho
limpar a sala, despojar teus restos
Me embriagar, dormir, ir me perdendo
na Atlântida do teu olhar

Qualquer dia destes sei que, enfim, acabas por voltar
com ares de quem nunca foi
Trocas os móveis todos de lugar
te asilas, como quem vem pra ficar
esqueces toda a precisão do navegar
Me agitas corpo, senso e coração
repartes riso, gozo, leito, pão
Consagras tudo o que há de mais profano em nós

Mas outro vento bate e te carrega
em busca de outro continente. Vais
novo oceano atravessar, sem volta
na imprecisão do existir
seguindo a sina de outras naus, naufragar

NPS

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