Damascos …

Quando os vi numa mesa do picnic do centenário do centenário Orfeão Universitário do Porto , não resisti e comi logo um . É uma fruta que aprendi a gostar com o meu avô . Gosto muito de frutos sumarentos e este não é!

Na aldeia do meu avô, as casas estão juntas , no povo , ou póvoa e os terrenos estão espalhados pelos montes e valados . O meu avô tinha 5 terrenos em sítios diferentes . O mais próximo era o amendoal onde tinha as colmeias e as respetivas abelhas . Era uma colina que terminava num cume agreste cheio de rochas e giestas para onde eu gostava de ir estudar para exames e escrever …

Depois , a uma meia hora de caminho da aldeia era a horta . Havia um tanque que recolhia água bombeada de um poço do ribeiro na extremidade sul do terreno .Ainda me lembro de ver usar a cegonha quando o motor não funcionava . Ali, naquela horta, o avô fazia as suas experiências . Uma ameixoeira com metade da árvore a dar ameixas amarelas e a outra metade vermelhas … Ele era o o Mestre dos enxertos daquela aldeia . Ali semeava, plantava e colhia tudo: desde batatas , tomate , cenoura , pimentos , alfaces , varios tipos de couve , piri-piri , meloes , vagens , laranjas , tangerinas , …

Mas o damasqueiro não era ali . Não , essa árvore estava estrategicamente plantada ao lado da vinha .

Para lá ir , tínhamos de ir de burro , descer e subir montes por caminhos extra-estreitos . O medo de cair era permanente mas o burro sabia o caminho de cor e não mostrava medo . À chegada à vinha, eu gostava de ir beber água fresca da nascente .Depois , enquanto o avô tratava das videiras ia banquetear-me com os figos , colhidos diretamente da figueira . Na lage da casa de apoio, ele abria os damascos ao meio , tirava o caroço e punha-os ao sol a secar ,junto dos figos . Foi ali , longe da aldeia onde não havia mais nada (as uvas ainda estavam verdes ) e estava farta de figos , que comecei a comer damascos…

Era o ritual no decursos dos diferentes verões que me fazia ansiar pelos damascos .

Hoje, sem avô, sem vinha,  sem verão na aldeia, ficou o apreço por damascos … Ai picnic do OUP, que memórias foste desenterrar …

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