Histórias amorais para crianças e animais

Há muitos meses, estava eu na Livraria Almedina, a alimentar o espírito via olhar, quando a minha visão se deparou com um pequeno monte de livros empilhados no centro de uma mesa de dimensões pouco generosas. Este monte era encimado por um exemplar na posição supina, graças à colocação de um banal suporte.

Era esta a capa que se me deu a conhecer:

Era-me impossível resistir a tocar-lhe, passar os dedos pelos fingidas marcas que o suposto tempo teria deixado e admirar com mais pormenor a imagem – bem como as da contracapa. As ilustrações remetiam-me para boas lembranças, ao folhear as saudosas revistas Blab!, editadas por Monte Beauchamp. E foi assim que tomei contacto com o mundo ilustrado de Sebastião Peixoto, de quem me confesso um fã incondicional desde esse momento.

E depois havia todo o design que a editora tinha conferido àquele livro, não o transformando num livro-objeto, é certo, mas que dava mui prazer a esfolhear… As largas margens das páginas eram pretas, o que conferia a impressão de que os retângulos brancos onde tinha sido impressa a tinta negra tinham sido roubados à escuridão, existindo mesmo várias páginas ou alguns momentos em que, sem qualquer razão aparente ou através de uma lógica oculta, o preto invadia o centro da página, obrigando os carateres a serem alvos.

O autocolante da livraria com o código de barras e respetivo preço, catalogava-o como uma obra pertencente à Literatura Infantil e Juvenil. Isto provavelmente geraria um sorriso ao autor.

Sobre o autor de Histórias Amorais para crianças e animais nada sabia… Mas já há muito me havia convencido a adquirir a obra pelo que foi sem surpresa que me vi na caixa a confirmar que não, não era para embrulhar como presente.

A obra de João Diogo Zagalo foi sofrendo o processo habitual cá de casa… Pousada num sítio visível para, com o passar do tempo, vir a ser encimada por outras obras e um dia rumar para parte incerta. Quando, por puro acaso, a vislumbrei, aquando procurava algo que já não sei precisar, agarrei-a rapidamente antes que desaparecesse e comecei a lê-la, dado o extremo cuidado que tenho com os locais por onde andam os livros que leio. Deste modo, não tornaria a desaparecer do meu radar. Na verdade, apesar de ter levado o livro para a praia algumas vezes – pareceu-me que era desapropriado, o que o tornava apetecível por razões que passarei a explicar – nunca saiu do saco, sendo lido sempre entre portas.

Zagalo presenteia-nos com mais de uma trintena de minicontos. Neles temos em comum a bizarria e o absurdo que surgem após uma pequeno introito de bonança narrativa. Desconheço se houve  acesa discussão ou não sobre que contos incluir no livro  ou a quais permitir uma discreta entrada no vazio (quiça para um dia serem salvos por uma fantástica equipa de heróis a serviço da publicação de inéditos), mas, na minha opinião, há alguns muito mais conseguidos que outros. A nível de gosto, é natural que se vá distribuindo pelos minicontos diferentes quotas quanto ao prazer que geram. Mas julgo que a obra seria mais consistente com a ausência de alguns, em que a técnica não se encontra ao nível dos demais.

De qualquer modo, e para que não restem dúvidas, gostei do livro – ou não se cansasse um amigo de me apelidar, há uma vintena de anos, de the king of nonsense.

NPS

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