Optimus Primavera Sound 2012 p3

Estas são as minhas impressões sobre o 3º dia do Festival. Pode ler sobre o 1º dia aqui e sobre o 2º dia ali.

Quando existe uma alteração drástica dos nossos horários dedicados ao sono, vigília, atividade digestiva e demais processos metabólicos, podem existir consequências. Se, concomitantemente, formos mais ativos fisicamente e reduzirmos as horas de descanso… também. Talvez tudo isso tenha contribuído para que, preocupado com a obtenção dos bilhetes para as atuações do dia seguinte, só me tenha apercebido de que não estava minimamente preparado para a intempérie ao estacionar a viatura.

Apesar de ter chegado à hora aconselhada pela voluntária na véspera – duas horas antes de ser permitida a entrada no recinto – a chuva convida-me a permanecer no carro, enquanto escuto jazz gravado entre os anos 30 e 50 do século passado. A polo que tinha comprado no 1º dia, tinha-se revelado uma companheira fundamental, ao facultar-me o calor que a t-shirt não fornecia quando, à noite, não estávamos no meio da multidão ou a dançar. Mas chuva…? Às 16 horas, é feito o compromisso, coloco o capuz da polo e abandono o carro. A fila estende-se quase até à Rua da Circunvalação, por esta hora. Alguns (poucos) ostentam invejados guarda-chuvas, outros têm impermeáveis obtidos no 1º dia do festival, vários festivaleiros vestem impermeáveis retirados do seu guarda-roupa e outros encontram-se ainda menos preparados para a chuva do que eu. Há quem coloque a sacola-toalha a servir de saia comprida para proteger as pernas e também quem a utilize como xaile com a sacola enfiada na cabeça. E também há quem chegue de táxi e se embrulhe em grandes sacos de lixo pretos. Quando finalmente se faculta a entrada, a fila ladeia grande parte da Circunvalação, em direção à Praça Cidade S. Salvador. Essa era a razão para o ritual a que se assistia – muitos dos que chegavam, percorriam a fila numa tentativa de reconhecer alguém e ficar ao seu lado e só quando não tinham sucesso se dirigiam pesarosos ao final da fila.

Na habitual separação por sexos durante a revista, os homens começam a aperceber-se que este simples ato está a originar que o menor número de festivaleiras entre no recinto mais rapidamente que os festivaleiros masculinos. Excelentíssima esposa, devias estar cá… Também não sou afortunado na escolha da fila entre as várias que permitem a entrada. Os seguranças estão a dedicar grande tempo a algumas mochilas. Outro festivaleiro demora-se a persuadir o segurança que aquele copo de vidro foi comprado aos Douro Boys no dia anterior e que lhe disseram que podia trazê-lo novamente… O segurança desconhece tal procedimento mas acaba por o deixar passar. Não corra, dizem-me, quando finalmente me afasto segurança apressado do segurança e me dirijo à zona de controlo de bilhetes.

E depois… é dar tudo por tudo! Os festivaleiros que adquiriram os passes gerais, à medida que vão entrando, vão fazendo o seu melhor sprint em direção ao ponto de informação. Ou a maioria… Há sempre alguns comentários de outros festivaleiros, interrogando porque razão estamos nós a correr. E é imperativo diminuir a velocidade quando nos apercebemos que a chuva origina lama em muitos locais do Parque da Cidade. Apesar de estar muito satisfeito por não ter sido ultrapassado por nenhum corredor, enquanto tento recuperar o fôlego, calculo pela minha posição nesta segunda fila que perdi alguns lugares na “grelha de partida” e que estou muito longe da “pole position”, amaldiçoando a fila de entrada que escolhi.

Mas, afinal, porque estávamos todos nós a sujeitar-nos àquelas peripécias com tal mau tempo? Os festivaleiros que tinham adquirido o passe geral, além dos 3 dias no Parque da Cidade, tinham a possibilidade de assistir a vários espetáculos no domingo em 2 outros locais. Os concertos que tinham lugar na Casa da Música obrigavam a este procedimento. E, tendo em conta a diferença entre os números – dezenas de milhares de festivaleiros vs. capacidade para pouco mais de 1000 lugares na Sala Suggia e 300 a 650 (consoante sentado ou em pé) na Sala 2 – a organização havia decidido que esta seria a forma de serem obtidos: por ordem dos que primeiro chegassem ao ponto de informação no último dia do festival no Parque, até esgotar.

Interessante era perceber as motivações dos companheiros de infortúnio mais próximos, que não debandavam da fila, enquanto a chuva teimava em não parar. Dos que me rodeavam, nenhum era um fã extremo dos artistas em causa. Uns gostavam, outros mais ou menos, outros nem conheciam. Porque se sujeitar então a esta provação? Uns refugiavam-se no ter direito aos bilhetes, outros numa frase semelhante a “entre não fazer nada no domingo e ir aos concertos…”.

Há quem reclame quando vê festivaleiros a tentar (e quase – se não todos – o conseguiram) furar a fila. “Mas os meus amigos estão ali, eu estou com eles” é a desculpa mais comum. “Também a minha namorada está lá à frente e eu estou aqui”, ouve-se alguém responder. “Não podem fazer isso, não podem passar à frente” afirma uma voz num tom débil, provinda de uma voluntária, a qual se sujeita a comentários mais e menos próprios, entre ser necessário mais colegas para manter a ordem, chamar os seguranças ou… “chame colegas que sejam homens e mais altos para impor o respeito”. Mas tudo é isto é proferido sem ninguém se exaltar e… sem grandes frutos. A verdade é que uma hora depois de começarem a distribuir os bilhetes, a área onde me encontro não deu um único passo para a frente, apesar de passarem por nós muitos festivaleiros de sorriso estampado e bilhete em punho. Sem dúvida, há inúmeros festivaleiros que estão a conseguir furar a fila.

Os Gala Drop iniciam o concerto. E estamos ali presos… Conseguimos ouvir o som distorcido, pelo menos… Já o som dos Mujeres não chega onde estamos.

Quando surgem voluntários com impermeáveis há quem comece a sair da fila para os obter (estamos à chuva há mais de 1 hora), mas somos avisados para não abandonar a fila ou perdemos o lugar. Que não nos preocupemos, que os impermeáveis são para quem está na fila. Duvidamos desta afirmação, a ver alguns voluntários a dirigirem-se para os palcos dos concertos. Ficam alguns que distribuem os impermeáveis principalmente pelos que estão no início da fila – os que não precisam de permanecer ali muito mais tempo. São distribuídos alguns pelo meio – não tive sorte – e lá para o final da fila , quase a chegar à loja de merchandise do festival. Felizmente, a polo está-se a revelar melhor que o esperado, não deixando que a água chegue à t-shirt.

Entretanto, já me apercebi que estão a fornecer – tal como sempre esteve escrito no site oficial do Festival – 2 bilhetes por pessoa. Ou seja, não era necessário ter trazido o cartão de entrada da minha esposa nem o recibo. Também não estão a colocar nenhuma pulseira no pulso. Ou seja, quase todas as informações que me foram dadas nestes 2 dias… estavam erradas. Curiosamente, quando duas voluntárias se aproximam da área onde estou para nos sensibilizarem para utilizarmos os contentores de lixo e de reciclagem, alguém aproveita para lhe dar a conhecer de que no dia anterior sempre que se dirigia a um ponto de informação, não lhe sabiam responder e o remetiam para outro ponto de informação e assim sucessivamente, sem que ele conseguisse chegar a uma resposta. Brinca, afirmando que têm muita informação e que os pontos de informação lhe parecem um local apropriado para colocar o lixo, dada a qualidade da informação prestada. A voluntária retruca que eles estão no final dos finais da cadeia hierárquica. Pelos vistos, há quem também tenha sofrido de desinformação, além de mim. Aliás, logo na 1ª noite de festival, quando questionei um grupo com 7 voluntários sobre a localização dos WC, me responderam não saber – nem sequer se tinham apercebido de que essa informação era uma das muitas que se encontrava nos programas que estavam a distribuir naquele momento…

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E eis que surgem alguns voluntários com um punhado de guarda-chuvas. Não são muitos. Questiono as voluntárias que estavam a sensibilizar ecologicamente a área da fila onde me encontro sobre qual o critério de distribuição dos guarda-chuvas, dado que vejo as colegas a entregarem tão desejado objeto a festivaleiros com impermeáveis vestidos alusivos ao festival e a ignorar quem não tem como se abrigar da chuva. Não há critério, respondem-me perentoriamente. Tento convencer uma voluntária a ir solicitar um guarda-chuva às colegas e dar-mo. Quando se dirigiu às colegas que estavam a abandonar o meu campo de visão, fê-lo tão constrangida que me apercebi de imediato que eu não teria sucesso com este plano. A colega dela permanece ali à minha beira, à sua espera. Parece desconhecer o que eu tão bem previa – não a tornaria a ver… Uns bons 15 minutos depois, lá se desculpa que vai ver o que se passa, dada a demora da colega. Adeuzinho!

A namorada do festivaleiro que estava lá à frente regressa com bilhetes. Só estão a dar 2 mas consegui 3. Quando a minha esposa telefona a dizer que está no exterior do recinto e a perguntar-me se já tenho os bilhetes para domingo, lá a informo que estou numa fila, sem ter dado um único passo desde que começaram a distribuir os bilhetes. Devido à informação obtida no dia anterior, estou desnecessariamente com o seu bilhete de entrada e ela não pode… entrar. Mas convenço-a a tentar explicar o que se passa e mostrar a sua pulseira… Poucos minutos depois, encontra-me na fila. Apenas lhe disseram para a partir de então trazer o bilhete sempre consigo.

Também sem guarda-chuva nem impermeável, parte à procura de voluntários em distribuição pelo Parque. Regressa sem sucesso. Quando finalmente consigo os bilhetes, já começou o concerto dos The Right Ons. Era uma das bandas que queria espreitar, mas decidimos beber algo quente. Já no multibanco, sentimo-nos extremamente desconfortáveis. Estamos encharcados. Ao lado, a loja de venda de tabaco com um gigante teto insufável, vê a sua entrada impedida com a caída do mesmo. Na loja de merchandise não vendem produtos destinados à chuva… Tomamos a difícil decisão de abandonarmos o recinto, irmos a casa, tomar um banho quente, vestir roupa apropriada, jantar qualquer coisa rápida e regressar.

Isso significaria que não assistiríamos aos espetáculos de Veronica Falls, James Ferraro, I Break Horses e para minha grande tristeza Siskiyou (de quem tinha ganho um poster na fila dos bilhetes), Spiritualized, Baxter Dury, Sleepy Sun e Death Cab for Cutie. Apesar de ter sido a decisão possível, cada minuto fora do Festival era doloroso ao pensar nos concertos que estávamos a perder…

Quando regressamos, secos, de energia recuperada e com vestuário apropriado, deixa de chover. Finalmente! Não fosse a lama, a noite não se distinguiria das demais. Assistimos a um pouco de Lee Ranaldo, um pouco de The Afghan Whigs e, em vez de espreitarmos também The Weeknd, optamos por nos dirigirmos para as primeiras filas do palco onde atuarão Kings of Convenience.

Foi aqui que conversei sobre significado de serviço público, estações de rádio e canais televisivos por cabo, bem como a considerações sobre se os 4 canais em sinal aberto estão vocacionados para a juventude – ou seja, a história do ovo e da galinha quanto a como os jovens trocaram o ecrã televisivo pelo que lhes dá acesso à internet. Mas também  há outras conversas – os Kings of Convenience começaram o concerto 10 minutos depois da hora prevista – como termos sabido que os Death Cab for Cutie tinham cancelado o concerto – eu nem queria acreditar, estava aqui à chuva há 1 hora, nas primeiras filas; eles tiveram mais de 1 hora para arranjar o palco e só o tentaram consertar poucos minutos antes do espetáculo começar – ou conselhos pragmáticos – eu fui inteligente, tenho várias mudas de roupa no carro.

Imediatamente antes de começar, atiram-nos impermeáveis. Entre as várias vezes que saltei, acabei por conseguir 4 no total, ficando nós com 2 e distribuindo os outros 2 a quem nos rodeava – nada como ter andado a praticar em vários concertos, a saltar para atirar balões pelo ar. Ainda seriam utilizados… Durante o concerto, apercebo-nos do som dos outros palcos. Já o tínhamos experimentado nas filas de trás do palco Primavera mas nunca nas filas da frente do Palco Optimus. Erlend Øye também se apercebe e brinca com o assunto, mas a dado momento altera inclusivamente a set list para tocarem uma música menos tranquila. Outro momento digno de registo foi aquele em que improvisou uma canção a questionar-se porque tinham tanto sucesso em Portugal – afinal, coube-lhes fazer esquecer o cancelamento de Björk. Para mim, foi extremamente curioso observar a ausência de reação do público quando parecia que Øye se perguntava se era por a banda e os portugueses viverem a tristeza de uma forma semelhante, aplaudindo quando entendem que Øye cantava frase semelhante mas desta feita ligada à alegria e emudecendo novamente quando atribui à felicidade um certo grau de melancolia. Quereremo-nos distanciar da tristeza e melancolia e sermos apenas… felizes? Talvez por isso – ou devido ao álcool – houvesse quem não conseguisse manter o silêncio nas primeiras filas, quando o mesmo era desejado, apesar dos “chius” de protesto dos restantes festivaleiros…

Não que não houvesse outro tipo de ambientes no concerto dos Kings of Convenience, tendo sem dificuldade colocado a plateia a cantar e/ou a dançar, completamente rendida. Algumas bandeiras de Portugal eram mostradas pelos festivaleiros – um écran gigante tinha aparentemente sido apreciado por alguns horas antes na praça de alimentação, com a primeira participação da equipa portuguesa no Euro 2012. Parem com as bandeiras, deixem-nas em casa, ainda para mais perdemos, ouvia-se um festivaleiro dizer.  No momento do encore, um dos festivaleiros que mais “chius” recebeu foi um dos principais responsáveis para que uma bandeira de Portugal chegasse às mãos de Øye, que a exibiu e colocou sobre os ombros nas últimas canções, para gáudio da maioria dos portugueses presentes. E o festivaleiro que tanta incomodava os demais? Já serviu para alguma coisa, ouviu-se proferir uma voz anteriomente sempre incomodada. É assim o perdão…

Não estamos inclinados a ver os Saint Etienne e os espetáculos dos Wavves e Dirty Three já terminaram. Escapamos aos Washed Out e vemos um pouco de Forest Swords. Durante o concerto dos The xx, não deixamos de pensar que poderíamos estar noutro local. E rumamos para a viagem que nos propõem os Demdike Stare, desconhecendo que o concerto de John Talabot não iria ocorrer. Eram quase 4 da manhã quando os Demdike Stare terminam a sua atuação perante uma plateia pouco composta – acabámos por estar na 1º fila. Os seguranças dão vivas de ânimo entre si ao ver o concerto chegar ao fim…

Já no palco Club, Erol Alkan mostra-nos porque atualmente é um dos DJ mais conceituados. Depois, é hora de ir descansar, faltando pelo 2º dia consecutivo ao After Party no Hard Club, entre as 6  e 11 da manhã, desta feita com John Talabot – teria comparecido? -, Ferdijey e Coco. Afinal, muito havia ainda para fazer no dia seguinte…

À saída, reparamos que o número de festivaleiros que se deslocou ao festival de bicicleta foi crescente ao longo dos 3 dias. Uma boa aposta!

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