Optimus Primavera Sound 2012 p2

Estas são as minhas impressões sobre o 2º dia do Festival. Pode ler sobre o 1º dia aqui.

Algumas horas de sono depois e após alguns compromissos familiares – o meu papá e a minha mamã agora têm uma pulseira e um cartão, explicou a minha filha de 4 anos à educadora quando a fomos buscar ao jardim-de-infância – regressámos repletos de energia ao festival. Ou quase… Não tínhamos tido tempo de beber café, mas sabíamos onde existia… no estabelecimento onde compráramos as farturas que tínhamos comido de madrugada.

Tivemos ainda tempo para revisitar com mais calma as lojinhas e a loja de merchandise do festival, onde a minha esposa se encantou por uma t-shirt do Rufus Wainwright. A vendedora questionou-nos onde tínhamos conseguido o café. Mas é caro, não é? perguntou-nos, após darmos as indicações. São as regalias do monopólio – a exclusividade tem destas coisas…

O dia ensolarado evidenciava o quão a arquitetura minimalista do festival se enquadrava na paisagem do Parque da Cidade. A zona VIP mais parecia uma casa de campo, o posto da Optimus um palheiro, os muros construídos com grades de cerveja não contrastavam, os stands de venda de cerveja e capirinha não poluíam visualmente os concertos e os abundantes contentores de lixo e material reciclável estavam bem posicionados – o que não impedia bastantes festivaleiros de atirarem para o chão os copos plásticos, dando mais trabalho do que seria necessário a quem os apanhava para não existir nenhum vestígio.

Ao contrário do dia anterior, com os concertos alternados entre os palcos Primavera e Optimus, lado a lado, seria a primeira vez que existiriam continuamente 2 a 3 concertos em simultâneo, obrigando a escolhas realmente difíceis, dada a qualidade do cartaz. Chegados ao Palco Club para ver a atuação de Esperit!, deparamos com as portas que permitem o acesso ao espaço… fechadas. Aproveitamos para percorrer o caminho até o outro palco que desconhecemos, o palco ATP (All Tomorrow Parties), da responsabilidade desta organização londrina promotora de festivais, concertos e editora discográfica, parceira do festival. Quase a chegar, descobrimos onde estão instalados os Douro Boys (leia-se Quinta do Vale Meão, Quinta do Crasto, Quinta do Vale Dona Maria, Quinta do Vallado e Nieeport) e o seu stand de venda de vinho, em madeira, que deliciava os festivaleiros, próximo de umas mesas, também elas de madeira.

Enquanto regressamos ao Palco Club, ouvimos os portugueses Linda Martini. Sim, já estão a tocar no Primavera. Contudo, as portas do Club continuam encerradas. Inquirida uma voluntária no ponto de informação, desconhece a situação. Vamos ver os Linda ou aguardamos pelo Esperit!? A voluntária inquire alguém que, com uma lógica inabalável, nos explica que como não tem conhecimento de nenhum cancelamento, o concerto irá ocorrer, talvez um pouco atrasado, apesar de estranhar as portas encerradas… Mais uma voltinha e finalmente as portas abrem-se. Metade do tempo de que o espanhol Mau Boada – o jovem dos sete instrumentos por trás do projeto Esperit! – dispunha para nos provar a sua genialidade, tinha-se esvaído… Éramos poucos a assistir – nem todos terão insistido 3 vezes para irem assistir a um concerto cujas portas para o palco se encontravam sempre fechadas – mas foram chegando mais àquele palco, com a particularidade de ser o menor e o único coberto para o público. Mau não pareceu importado com a diminuta assistência e literalmente fez a festa sozinho, não só por tocar energicamente todos os instrumentos, mas também pela genuína felicidade inegavelmente estampada no rosto. Este rapaz adora tocar música, ponto. E os festivaleiros presentes aplaudiram com entusiasmo a pequena sessão com que nos presenteou.

Dado o bom tempo, soube bem abandonar o recinto coberto para bisar a toalha estendida na relva, à espera dos portugueses We Trust. O André Tentugal não se cansa de solicitar a quem não está junto ao palco para levantar-se e juntar-se-lhe… mas o sol… estava-se tão bem! Achei também curioso que a interação com o público fosse feita em português num festival com uma maioria de festivaleiros estrangeiros. O plano era assistir apenas a parte do concerto, pois entretanto iniciar-se-ia o concerto dos Tall Firs – e dos Other Lives, também… escolhas, escolhas. Mas acabamos por ver a atuação completa dos We Trust… muito boa, por sinal.

Quando chegamos ao palco ATP, já há muito que os Tall Firs atuam. A melodia convida a deitar na relva e mirar o céu azul e as poucas nuvens brancas – não, não vai chover. Um momento perfeito… Que termina algumas músicas depois com o fim do espetáculo…

O concerto dos Yo La Tengo foi coerente com a montanha russa melómana que tenho em relação à banda. Também evidenciado pela profusão de estilos – ora mais rock, ora mais pop, ora mais… dance! Afinal, são décadas de existência… Houve, por vezes, vontade de ir espreitar os outros concertos que ocorriam em simultâneo – The War on Drugs e especialmente Tennis (que tinham permutado a data do concerto com os Sleepy Sun, ao contrário do que constava no programa distribuído no recinto) – mas os Yo La Tengo reconquistavam-nos sempre na música seguinte. Conclusão: assistimos ao concerto na sua totalidade, jantando durante as músicas que menos nos convenceram! É claro que estar sentando ou de pé, estar deitado na relva ou a dançar, estar perto ou longe do palco, permite uma imersão extremamente diferente no espetáculo, podendo ser um fator importante na apreciação final que se faz do mesmo…

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E tinha chegado o momento porque muito esperávamos – Rufus Wainwright. Já o tínhamos visto sozinho em palco num concerto em Famalicão e esta era a oportunidade para vê-lo com uma banda em contexto de festival. O Rufus merecia que estivéssemos na 3ª fila e lá encontrámos uma quantidade apreciável de fãs do cantor (ou cantautor, dirão alguns). Confirmámos uma impressão que já tínhamos… este senhor, no palco, consegue ser bigger than life. Rufus revisitou vários dos seus álbuns, mostrando-se bastante menos conversador que no espetáculo famalicense. No entanto, tempo houve para dedicar uma música à filha, outra ao pai a ainda uma à… Grécia, bem como elogiar a beleza das livrarias portuenses – e graçola ao quanto tal é sinónimo de rock’n roll -, do pôr-do-sol e dos… surfistas que frequentam a praia em frente ao Edifício Transparente. Os fãs que nos circundam vão referindo como está lindo ou proferindo uns tímidos oh my god à medida que anuncia a canção que se seguirá. Estamos num ambiente de idolatria que nos permite assistir a inícios de conversas – não se prolongam, pois há que ouvir Rufus – como uma entre uma portuguesa e um espanhol quanto a uma canção retirada do álbum que Rufus editou após a morte da sua mãe, “All Days Are Nights: Songs for Lulu“, é bom, mas é luto; é bom, mas é luto, percebes? Ora a capella, ora com a sua excelente banda, terminou a solo ao piano, presenteando-nos após a playlist com algo que habitualmente já não toca ao vivo, o tema Hallelujah. Findo o concerto, ao olhar para trás, deparamo-nos com a maior quantidade de festivaleiros que já presenciei no Optimus Primavera, a perder de vista… Irá ser o concerto diurno mais visto em todo o festival. O último CD de Rufus, à venda na loja de merchandise, esgota num piscar de olhos.

Tinha alguma curiosidade em vislumbrar a parafernália de Rafael Toral e ouvir um pouco do concerto dos Chairlift, mas a omnipresença não é uma possibilidade e o espectáculo dos The Flaming Lips está quase a começar. Por espectáculo entenda-se o circo visual de confetes, a bola gigante dentro da qual Wayne Coyne fez crowd surfing, mãos gigantes transmissoras de feixes de luz para o público e para a bola de espelhos suspensa no palco, majorettes a dançar em ambos os lados do palco e um gongo luminoso. Por tudo isto – e a música, claro – o público foi condescendente quanto às exigências para que o mesmo – apelidado de motherfuckers – grite mais alto ou coloque os braços no ar, por entre elogios ao Parque da Cidade e… ao próprio público. O poder da visão é extremamente poderoso e este revela-se como um dos momentos preferidos por muitos festivaleiros.

Infelizmente, já não há tempo para assistir aos Codeine – idem para Black Lips – e dirigimo-nos para os Wilco, numa decisão que nos irá impedir de assistir a Neon Indian e Shellac. Opções, opções… Os Wilco também fizeram várias opções com o seu alinhamento musical, visitando vários caminhos e mostrando-se virtuosos na interpretação ao vivo dos seus temas, bem como na improvisação. O público aplaudiu sem reserva.

Terminado o concerto, caminhamos em direção a Beach House no palco Club. Ao contrário do que tínhamos vivenciado 8 horas antes, o diminuto espaço encontrava-se repleto. Escutados 3 bons temas na periferia do recinto e com o afluir de festivaleiros, pelas duas entradas, a um local onde não cabia mais ninguém – o palco revelou-se pequeno para a aparente popularidade da banda – resolvemos debandar… Deslocámo-nos ao ponto de informações para saber novidades sobre o local e hora a que os bilhetes de domingo seriam levantados. Já estava definido que ia ser naquele mesmo local, no dia seguinte a partir das 17h.

Isto coloca-nos um problema. No dia seguinte, a minha esposa não poderá estar a essa hora no recinto. O termos apenas um bilhete estraga-nos os espetáculos de domingo… As voluntárias abrem a boca e arregalam os olhos com um ar de calamidade apocalíptica. Em 3 dias de festival (leia-se cerca de 30 horas no total ou mais), se se está ausente na única hora em que são distribuídos os bilhetes… é o fim! Poderei eu levantar os 2 bilhetes? Aconselham-nos a ir questionar o ponto de informações… fora do recinto. Não acreditam que seja possível, pois irão colocar-nos outras pulseiras – o que obriga a que seja presencial – para apresentarmos na Casa da Música… mas as colegas talvez tenham alguma solução. Enquanto adquiro bebidas e snacks, a minha esposa segue a sugestão fornecida. No ponto de informações exterior ao recinto é então explicado que se ela me der o seu cartão de entrada e eu o mostrar em conjunto com o recibo de como comprei dois passes gerais, talvez me deem 2 bilhetes… Talvez! Dizem-lhe também para eu chegar 2 horas antes das portas abrirem para conseguir ter bilhetes, pois os lugares são extremamente limitados… Quando tenta reentrar no festival… demora bastante. Ou por a entrada estar pouco movimentada e não haver grande atividade naquele momento ou por sair para ir ao posto de informações exterior e voltar a entrar ser um comportamento suspeito, os seguranças demoram-se a revistar a sua sacola ao ínfimo pormenor… Até contam o dinheiro que traz consigo na carteira… Enfim!

Reunidos novamente, deparamo-nos com mais uma escolha: Wolves in The Throne Room ou The Walkmen? Optámos por estes últimos. Ou por chegarmos a meio e assistirmos mais afastados do palco ou porque o nosso humor não estava sintonizado na mesma onda, a verdade é que não ficámos com grandes recordações da atuação realizada – apesar de ser um dos preferidos de festivaleiros com quem falámos no dia seguinte.

De qualquer modo, M83 estava quase a começar e queríamos ficar nas primeiras filas. A banda francesa transformou o Parque da Cidade num palco de dança entre a sua indietrónica e eletropop e a energia aparentemente inesgotável do jovem Jordan Lawlor.  Quando termina, após as 3 da manhã, estavam ainda os festivaleiros disponíveis para continuar. Mas não houve encore. Uns dirigiram-se ao palco ATP para verem Thee Oh Sees, outros para o palco Club, onde a editora escocesa Numbers anunciava apresentar 5 DJ – Jackmaster, Oneman, Deadboy, Spencer e Redinho. E para quem desejasse prolongar a festa, a mesma continuaria no Hard Club no 1º After Party do festival, entre as 6 e 11 da manhã com Jackmaster e o DJ português Expander. No entanto, compromissos profissionais ditavam que estava na hora de partir… E no dia seguinte teria que chegar mais cedo…

NPS

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