Optimus Primavera Sound 2012 p1

Por esta altura, já deve ter lido tudo o que quis sobre esta temática. Mas ainda não conhece alguns detalhes interessantes… Eis a minha experiência – muito gratificante, adianto já – no Festival:

E finalmente tinha chegado o grande dia, o início do festival Optimus Primavera Sound 2012. Ainda não era meio-dia, já os meus filhos se deliciavam com o labiríntico caminho para chegar ao local de troca do passe geral pela pulseira e cartão de acesso ao festival, sem estarmos sujeitos a filas. Não percam os cartões, avisou uma das voluntárias, a quem aproveitei para inquirir quando e onde se iriam levantar os bilhetes para os concertos de domingo na Casa da Música. Confirmou-me que só poderiam ser levantados no sábado, mas que não estava ainda definido o local. Respondi-lhe que tinha lido no site do festival que seria no ponto de informação… Pois, mas eu ainda não vi nenhum local de informações; talvez seja ali – disse, apontando para uma barraca deserta no exterior do recinto, a qual tinha pousado no chão uma rodela com um grande i minúsculo estampado… E foi assim que se iniciou a saga dos bilhetes de domingo (esteja atento aos próximos episódios). A minha preocupação era simples – a capacidade das salas da Casa da Música não era compatível com o número previsto de festivaleiros…

Ao contrário das previsões metereológicas que eu seguia há um mês, o tempo estava bastante agradável e almoçámos na praia, antes de a família ficar reduzida aos adultos (obrigado, avós!). Entretanto, fiz a atualização da aplicação para o android do Festival. Tinha-se finalmente acesso ao mapa. No entanto, não se conseguia ter acesso ao cartaz, a função mais interessante (horário dos concertos, pequenas biografias do artistas e acesso à música do mesmos). Havia quem inclusivamente escrevesse nas críticas do mercado do android que a aplicação tinha perdido essa função com a nova atualização. Mas findo o festival, garanto que funciona (demasiadas pessoas a solicitar informação em simultâneo na altura?).

Pormenores. Vamos ao que interessa. Regressados ao recinto, as portas abrem já após as 16h00 (aliás, vão sempre abrir todos os dias mais perto das 17 que das 16, ao contrário do que estava previsto). É-nos ofertado um panfleto a publicitar o concerto da Björk em Santiago de Compostela a 22 de junho, onde se escreveu tratar-se da única apresentação do álbum Biophilia que ocorrerá em Espanha e Portugal. Portugal? Adiante. Rapidamente se vislumbra o local do imprescindível multibanco e a praça de alimentação, faz-se um tour ultrarrápido pelos stands e dirigimo-nos ao Palco Primavera, onde se iniciará o primeiro concerto com os portugueses Stopestra. Os voluntários espalham toalhas de piquenique no desnível relvado. O sol convida a estas coisas… Os ainda poucos festivaleiros presentes preferem sentar-se nas toalhas, a receber energia, sendo poucos os que se encontram perto do palco. Ao contrário destes, a maioria dos restantes parece algo alheada e pouco convencida do que se passa no palco, conversando entre si ou deitando-se no verde. Não que o coletivo Stopestra se possa classificar de bucólico…

Segue-se a primeira romaria. Pegar na toalha e espalhá-la agora na encosta que termina no palco Optimus. A distribuição pelo espaço repete-se, apesar do número de festivaleiros junto ao palco ter crescido bastante (e os sentados/ deitados na relva, ter aumentado muito mais). Foi um dos grandes momentos que muitos… perderam! É verdade que a banda espanhola Bigott não deu novas roupagens às suas músicas. E também é verdade que não era imprevisível que a presença de Borja Laudó em palco fosse divertida. Mas este projeto já é tão original na sua essência que ouvir ao vivo as músicas tal e qual as conhecemos – ou ainda não – é mais do que suficiente. E a música convidava à dança, sem dúvida! Mas o sol provocou inércia aos que insistiam em se manter nas toalhas. E, nos dias seguintes, era com um sorriso cúmplice que, aquando questionados sobre qual a identidade dos responsáveis da banda sonora do vídeo que o canal 180 realizou para o primeiro dia do festival, se esclarecia os curiosos que se tratava de Bigott, o 2º concerto do Festival… uma joia perdida. Curioso foi também ver o quão divertido Laudó estava no palco enquanto os restantes elementos do quinteto pareciam demasiado concentrados nas suas funções.

E sentadinhos parecia ser a postura correta para assistir a Atlas Sound. Perante já não existirem toalhas livres espalhadas pelo relvado, os mais afortunados são premiados com uma sacola que se transforma em toalha. Bradford Cox veio apresentar este seu registo intimista, confessando-nos ter-se apaixonado pela beleza da cidade do Porto anos atrás. Ou era o sol que estava a desaparecer e a alterar o humor aos festivaleiros ou realmente se constatou algum desapontamento com a atuação. Pelos comentários ouvidos, muitos desconheciam o seu trabalho atual e apenas apreciavam a sua banda Deerhunter. Outros adoravam as belas canções “Mona Lisa” e “Terra Incognita” mas não gostaram das interpretações que ali foram dadas… Não foram poucos os que foram desaparecendo…

Acabado o concerto, descobrimos onde estavam. Filas enormes na praça da restauração… O final das filas é confuso, pois terminam coladas aos bancos das mesas de restauração. Pouca oferta e não muito variada. E nalguns estabelecimentos, manipuladores de alimentos sem nenhum tipo de formação nem experiência… E começa a chover… Nada na praça de alimentação é coberto, numa atitude demasiada confiante por parte da organização no bom(?) tempo da Cidade Invicta, quando há mais de 1 mês se anuncia chuva… Há quem continue nas mesas a jantar, há quem tente se abrigar nas diminutas áreas debaixo das palas ostentadas por alguns estabelecimentos. E os que estão nas filas, não as abandonam pois têm fome e querem ir ver o Yann Tiersen o mais rapidamente possível – os horários dos concertos têm sido respeitados quase na íntegra e os intervalos entre os mesmo são curtos.

As instalações sanitárias masculinas apresentam os 2 tipos de estrutura habitual, sendo que os urinóis são também ao ar livre, molhando com chuva quem os utiliza. Tratam-se de estruturas simples, com as divisões a formar uma cruz, com um urinol em cada um dos quatro cantos centrais. Não quero nenhum tipo de contacto com essa estrutura, ouve-se. Outros fazem-se menos rogados e há inclusivamente quem corra por entre as cruzes há procura do primeiro lugar a vagar.

Já não chove quando chegámos ao concerto do Yann Tiersen. Isso significa que as filas na restauração nos roubaram um tempo superior ao que tínhamos planeado. No caminho, apercebemo-nos que estiveram a distribuir impermeáveis. A namorada de um festivaleiro inglês chega vitoriosa com 4, para o casal e amigos, recebendo com algum choque a notícia que ele não tenciona vestir tal coisa e imediatamente os dando a quem passa. Ao interrogar uma voluntária, somos informados que a distribuição já parou e só recomeçará se chover novamente… Ou seja, nada de prevenir, apenas se remedeia… e apenas a uma pequena fração… É tempo de comprar um polo com capuz alusiva ao festival, que se revela a solução perfeita para o frio.

Mas o Yann Tiersen faz esquecer todos estes detalhes. Com a chuva, mais ninguém está sentado. Todos estão concentrados no palco. Este compositor e a sua banda brindam-nos com um concerto repleto de energia, que coloca os mais incautos a dançar, perante os sons que extrai do sintetizador, guitarra elétrica ou violino. Era o segundo grande momento da noite, mas ainda com um número de espetadores bastante inferior à vintena de milhar que visitaria o festival nessa noite. Já anoiteceu quando a atuação termina e há quem diga que quer assistir novamente a outro concerto deste músico, mal tenha oportunidade, apesar de soar agora tão diferente do registo da banda sonora d’ O Fabuloso Destino de Amélie, obra que o internacionalizou.

A caminho do concerto dos The Drums encontram-se amigos. Sim, é possível encontrar amigos entre uma vintena de milhar sem qualquer tipo de combinação prévia. Experimentámo-lo algumas vezes e não deixei de constatar a alegria dos reencontros que se viam um pouco por toda a parte, fossem festivaleiros portugueses ou estrangeiros. Os The Drums fizeram um concerto que convenceu por completo os seus fãs e colocou outros a cantarolar os seus êxitos internacionalmente conhecidos, sem inovações nem grande interação com o público. Mas ficámos surpreendidos como se pode admirar uma banda e não saber muito sobre ela. Dizia-nos dois dias depois um par de jovens que tinham ido ao festival especialmente para ver The Drums que eles eram realmente ingleses, pois aqueles cortes de cabelo não enganavam ninguém… Estavam tão encantadas que não tivemos coragem de dizer que a banda é norte-americana, mais concretamente de Brooklyn, apesar das confessadas influências do rock alternativo e pop independente britânico dos anos 80. Terá tal influenciado os penteados?

Se durante o dia já eram visíveis, à noite tornam-se evidentes os múltiplos ecrãs de telemóveis e máquinas fotográficas digitais que tentam capturar fotos e vídeos dos artistas em palco. Consegue-se viver o momento que se deseja recordar mais tarde? Ou está-se demasiado concentrado nas especificidades a que a fotografia ou o vídeo obedecem para conseguir realmente apreciar o que se passa? Curioso é verificar que se trata de uma prática que não escolhe idades, num festival com uma média calculada em 30 anos e onde se observam ora festivaleiros bebés com protetores auriculares ora festivaleiros grisalhos com ou sem prótese auditiva.

E eis que ressurgem os Suede. Dez anos após o último álbum e dois anos após o seu regresso ao vivo, Brett Anderson já não é o mesmo jovem esbelto de estilo andrógino de outros tempos. Os anos passaram, o índice de massa corporal aumentou e o visual tornou-se mais clássico. Mas continuam populares, a julgar pela animada audiência, que foi brindada com o primeiro e único encore do dia.

Não se seguiram os Explosions in the Sky, um dos meus eleitos para este dia. O cancelamento foi comunicado apenas no dia 28 de maio – 19 dias após o cancelamento do da Björk – e o seu nome ainda constava no programa distribuído no recinto sob a forma de colar e medalhão, para estar sempre à mão. Em sua substituição, a última adição ao cartaz, os veteranos Mercury Rev. Já passava da meia-noite e Jonathan Donahue chegou com uma garrafa – presumimos que de vinho – e ingeriu o seu conteúdo pelo gargalo antes de iniciar o concerto – mais tarde, viria inclusivamente a realizar o teste calcanhar-joelho, vulgo fazer o 4, para atestar a sua sobriedade. Apesar de não editarem nenhum álbum há 3 anos, tiveram direito a uma enorme audiência, tendo sido os primeiros a literalmente fazer o chão tremer (ou então, estávamos nós mais perto do palco para o sentir). Donahue levava a garrafa vazia quando saiu…

E após as 2 da manhã a actuação dos The Rapture conquistou sem esforço os vinte mil festivaleiros com a sua mistura de rock independente com dance punk, acid house e eletrónica. Quando terminaram, a plateia queria dançar mais. Mas estava terminado o primeiro dia do festival. No dia seguinte haveria mais…

Ainda há tanto para contar…

NPS

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