A minha escola de cinema

Este slideshow necessita de JavaScript.

Nado e criado na Foz, era com extrema satisfação que me deslocava à baixa portuense ou à Boavista para vivenciar a magia do cinema. A cidade da minha infância e adolescência proporcionou-me muito e bom cinema. Tudo mudou e pouco sobejou…

O início da minha vida jovem adulta aliou-se a um outro espaço da sétima arte no Porto, o Campo Alegre. Há duas décadas, encontrar-me-iam com frequência q.b. na Casa das Artes. Após uma dezena de anos desde a sua conceção, aquele edifício de granito e vidro do Souto Moura, que lhe valeu o Prémio Secil de Arquitetura e lhe conferiu as asas para voar, apresentava o melhor cinema contemporâneo de então.

E a surrealidade de todo o conjunto onde o cinema se encontrava inserido, aumentava exponencialmente a magia da sétima arte. Localizada numa área onde no início do século passado habitavam abastadas famílias – não muito longe, encontra-se por exemplo a antiga quinta dos Adresen, atualmente o Jardim Botânico da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto – a entrada este, na Rua António Cardoso, com o seu bonito gradeamento e os imponentes cedros-do-líbano, destacava o edifício principal, o  palacete do Visconde de Vilar d’Allen. Trata-se de um dos inúmeros projetos do arquiteto portuense José Marques da Silva – com um invejável currículo onde constam a Estação de São Bento, Teatro Nacional São João ou a Casa e Jardins de Serralves, entre tantos outros – datado de 1927. Esta moradia, de estilo neoclássico, decorada de arabescos pompianos e com aplicação de mosaicos, conferia-me a sensação de intrusão na propriedade. Era algo bizarro sentar-me  nos degraus que ladeavam a fachada sul do palacete com vista para o lago, tendo de fazer um esforço consciente para me esquecer de que ali labutavam os funcionários da delegação norte da Secretaria de Estado da Cultura. Mas o esforço era recompensador em pouco tempo…

Inclusivamente, os magníficos jardins convidavam à descontração, reflexão, convívio ou namoro, conforme a companhia. Um gigante tulipeiro, tílias prateadas – com folhas em forma de coração – faias, magnólias, ameixeiras de jardim e eucaliptos-vermelhos, entre a demais flora e fauna, conferiam tons distintos ao jardim, consoante a floração ia ocorrendo.

E, completamente inserido na paisagem circundante, próximo à estrada oeste da Rua Ruben A, encontra-se a Casa das Artes. Na altura, gerido pela Atalanta Filmes/Medeia Cinemas, foi a minha escola de cinema. Naquele grande écran, pude assistir às obras de realizadores que continuam extremamente presentes no meu radar, como Jane Campion, Jacques Rivette, Peter Greenway, Otar Iossliani, Win Wenders, Lars von Trier, Jean-Pierre Jeunet, Abbas Kiarostami, Alan Resnais, André Téchiné, Felipe Vegas, Jacques Tati, François Truffaut, Emir Kusturica, David Lynch, P.J. Hogan, Eric Rohmer, Gus van Sant, Roman Polanski, Jean-Luc Godard, Sally Potter, Mike Leigh, Danny Boyle, Manoel de Oliveira, Michelangelo Antonioni, Nanni Moretti, João César Monteiro e tantos outros que a memória neste momento não destacou…

Tratava-se, contudo, de “aulas” pessoais. As poucas pessoas que frequentavam o espaço em simultâneo (não me recordo de nenhuma sessão com mais de 10 pessoas) não conviviam entre si nos intervalos ou no tempo de espera até se iniciar a sessão. Não que também não tivesse visitado a sala inserido num grupo. Mas estes grupos variavam entre 3 a 4 pessoas, nunca mais…

O que a memória também não esquece é a particularidade de, extremamente friorento como sou, a sala de cinema gelar-me nos meses mais frios. Mas a motivação era suprema e a experiência pode-nos ajudar a ser criativos. A solução que encontrei foi levar uma mantinha dentro da mochila, que retirava apenas após as luzes se apagarem e era rapidamente arrumada mal eram acesas 🙂

Tempos que não voltam… Todo este espaço (jardins, palacete e cinema) encontra-se encerrado e degradado há alguns anos. E, até ao momento, apesar das sucessivas intenções e projetos, assim permanece.

Anúncios